Quênia e a saudade de um jeito mais verdadeiro de viver
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Meu nome é Alessandro, tenho 25 anos e trabalho como chef freelancer em eventos privados a domicílio. É um trabalho que me dá muito, me fez crescer e me torna mais responsável… mas, ao mesmo tempo, tira muito de mim: tempo com a família, relacionamentos, momentos reais.
Há alguns meses voltei de três meses na África, no Quênia.
Parti com dois motivos no coração. O primeiro era pessoal: eu precisava redimensionar minha vida cotidiana. Quando se trabalha muito, se corre e se perseguem objetivos, corre-se o risco de perder o sentido das coisas. Eu sentia a necessidade de parar e focar novamente no que realmente importa.
O segundo motivo era mais simples, mas maior: eu queria estar presente para quem mais precisa.
Estive no Quênia, entre Nairóbi e vilarejos ao norte da cidade. Com nossa associação, acompanhávamos algumas escolas: uma em um vilarejo mais simples, mas digno, e outra em uma favela próxima, onde a pobreza é realmente absoluta. Duas realidades a poucos quilômetros de distância, mas com diferenças enormes.
Meus dias eram feitos de coisas simples: brincar com as crianças, ajudá-las com tarefas de matemática e inglês, tentar aprender algumas palavras em suaíli. No início, eu pensava que estava indo para “ensinar” algo. Depois percebi que eu era quem mais estava aprendendo.
Aprendi que um sorriso pode nascer mesmo sem ter nada.Aprendi que tudo pode ser compartilhado, mesmo quando se tem muito pouco.Aprendi que a alegria não depende do que você possui, mas de como você vive o que tem.
Depois, passei duas semanas em um centro de reabilitação para pessoas com dependência de drogas e álcool. Foi uma experiência muito intensa. Decidi vivê-la como eles: sem celular, com uma rotina bem definida. Acordar às seis, rosário, missa, café da manhã, trabalho no campo, almoço, descanso por causa do calor, depois novamente trabalho com os animais, banho, jantar e, por fim, um momento de partilha do dia.
No início foi difícil. O silêncio, o distanciamento, o esforço físico. Mas foi justamente ali que encontrei uma força incrível: homens que haviam chegado ao fundo do poço e tinham uma enorme vontade de recomeçar. Vi o que significa lutar todos os dias para mudar de vida. Vi o que significa realmente confiar.
Antes de partir, eu tinha medo. Medo de não me adaptar, de me sentir sozinho, de não estar à altura. Hoje, porém, posso dizer que a “saudade da África” realmente existe. Não é uma nostalgia exótica. É a saudade de um jeito mais verdadeiro de viver.
A África não me ensinou que lá as pessoas são mais pobres. Me ensinou que, às vezes, nós somos mais pobres em relações.Com pouco, eles sabem viver o presente. Sabem aproveitar cada momento. Ainda sabem manter relações humanas autênticas, profundas e comunitárias. Aqui, muitas vezes temos tudo, mas corremos, nos distraímos e ficamos sozinhos em meio a tantas coisas.
Essa experiência não me mudou porque fiz algo extraordinário. Ela me mudou porque me fez entender que a missão não é “ir para longe”. A missão é aprender a olhar para quem está ao seu lado.
Hoje voltei ao meu trabalho, a cozinhar e organizar eventos. Mas faço isso com um olhar diferente. Procuro dar valor ao tempo, às pessoas e à presença. Tento não dar mais nada como garantido.
Se devo deixar uma mensagem, especialmente para os jovens como eu, é esta:não tenham medo de partir. Não para fugir, mas para encontrar. Não para se sentirem heróis, mas para se deixarem transformar. Porque, no final, a gente parte pensando em dar… e volta tendo recebido muito mais.
Alessandro Attardo












