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Uma grande rede!

Giordana Drago

Na minha vida havia ouvido muitas histórias sobre a favela e sobre Rio De Janeiro, começando pelos filmes como Cidade de Deus, e, por isso, a minha ideia e imagem não era das melhores. Por isso, procurei sair com o mínimo de expectativas possível, para evitar estereótipos e preconceitos: o meu objetivo era principalmente ajudar as crianças o máximo possível, brincando com elas, distraindo-as, contando histórias de otimismo e outros mundos fora da favela.


Inicialmente preocupava-me não poder fazer muito: não sendo qualificada e especializada em algo, às vezes sinto que não fiz algo realmente concreto, mas sempre procurei fazer o possível.


No começo eu era como uma esponja: absorvia tudo o que via e ouvia, era muito curiosa porque tudo era novo. O que me impressionou do Rio é o seu tamanho: tudo é enorme em relação à Europa, desde a natureza até as ruas, os prédios, as casas, os subúrbios.


A primeira lembrança foi depois de ter saído do aeroporto, durante a passagem na Avenida Brasil. A noite, a favela estava iluminada por milhares de luzes e estava cheia de carros. Assim que cheguei em casa, Padre Renato estava lá para me receber, contar-me e explicar muitas coisas sobre a Casa do Menor, junto com Lucinha.


A Casa do Menor é uma realidade muito grande, e fica em vários países. Fiquei muito impressionada com a quantidade de pessoas envolvidas, como os trabalhadores, e as milhares que foram e ainda são ajudadas. A quantidade de pessoas necessitadas é impressionante.

A relação com as pessoas de lá foi muito boa: foram todos muito gentis e prestativos, me deram muitos conselhos e contaram muitas histórias. No início talvez tenha sido complicado porque eram todos mais adultos e com muito empenho, por isso muitas vezes encontrava-me sozinha, mas com a chegada da outra voluntária tudo se inverteu.


Também cheguei num determinado período para a CdM, em que não havia outros voluntários e o Padre Renato regressou a Itália, e deparei-me com uma certa desorganização que por vezes me deixou um pouco deslocada. Por vezes senti-me um pouco só, excluída, é difícil integrar-se e acomodar-se inicialmente, e também tem pessoas mais disponíveis e outras menos.



Sobre tudo me senti perdida em um país tão enorme e do outro lado do mundo, em comparação com a Itália. Perdida considerando o ponto de vista emocional, as emoções eram muitas e conflitantes: o que eu às vezes sentia, ouvindo as histórias de quem mora na Baixada, era algo muito grande que me deixava profundamente desorientada.


Com o tempo, porém, como sempre acontece, as coisas se acalmaram e a relação com educadores, coordenadores e companheiros melhorou: de outras pessoas na maioria das vezes sempre encontrei gentileza, alegria, disponibilidade que facilitaram o processo de conhecimento e o trabalho.


O melhor momento para mim era quando chegava a qualquer projeto: todos os dias, de manhã, para me receber nos vários escritórios da CdM havia crianças de braços abertos que corriam ao seu encontro e não viam a hora de brincar. Eu me senti como se fosse a irmã deles, tanto era o amor que eles demonstravam, eles me deram mais do que eu poderia dar: nunca serei grata o suficiente por tudo que aprendi e vi, pelo amor recebido.


Falando sobre a realidade social dos lugares, acho que deveria haver um livro a ser

escrito sobre isso. O que percebi é que não existe uma só realidade, mas que existem muitos que convivem e se contradizem: os subúrbios, o centro do Rio, os milhares de pessoas desta metrópole, alguns reduzidos à pobreza, outros com casas de frente para o mar, os que trabalham honestamente apesar de tudo, os que se envolvem no tráfico, seja como bandido ou como criança que vive nesse contexto.


Muitas vezes me senti como estranha, e isso causou uma mudança em mim, sobretudo mental: era a minha primeira vez sozinha fora da Europa e do mundo ocidental, mas vi que tem também muitos aspectos semelhantes com a minha cultura mediterrânea, outros muito diferentes. De fato, muitas vezes me senti muito ocidental, mesmo apenas na aparência, e percebo que minha mente é profundamente influenciada por minha cultura. Muitos estereótipos e ideias que eu tinha sobre o Brasil foram desmascarados.


A maior mudança foi que, mesmo quando a pessoa se sente impotente diante de tanto sofrimento, mesmo um pouco de carinho e atenção pode fazer uma grande diferença. Compartilhar qualquer coisa de alegria, festas, comida, dor, silêncio, luto.


Saí sem expectativas, para ser o mais livre de julgamentos possível. E mesmo que eu tivesse algumas expectativas, todas elas foram cumpridas. Quando eu estava no avião, voltando, estava quebrada. Agora que estou em casa, tento calmamente refazer o que vivi, mesmo que demore um pouco.


Tantas memórias maravilhosas que espero reviver. Uma nova consciência das disparidades e injustiças, quase exageradas no Rio, mas que não faltam nem aqui na Itália. Posso trazer minha contribuição aqui também, e o farei.



Cresci muito neste período, não é para todos viajarem sozinhas para o outro lado do mundo, principalmente como mulher, mas quis provar o contrário e consegui, sobretudo graças a todos aqueles que me ajudaram.


Criou-se uma rede, um efeito em cadeia, que espero poder partilhar também com outras pessoas!


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