DAS AULAS À EXPERIÊNCIA MAIS INCRÍVEL DA MINHA VIDA

 

O ano de 2018 foi marcado por uma imensa reflexão. Para além das turbulências políticas que marcaram uma nova era presidencial no Brasil, 2018 foi o ano que exigiu demais de minha saúde, e acabei colhendo algumas seqüelas desse esgotamento laboral.

Lecionando Sociologia em três escolas públicas e convivendo com uma gama de adolescentes e jovens diferentes, muitos com realidades muito duras, acabei desenvolvendo uma doença chamada Síndrome do Pensamento Acelerado e precisei me ausentar da sala de aula por um tempo.

Nunca havia passado por isso antes. Quando estava na contagem regressiva para a virada do ano, sob o som e luzes dos fogos de artifícios na praia de Copacabana, fazia uma retrospectiva do ano que terminava e pensei: 2019 vai ser um divisor de águas em minha vida.

Mesmo necessitando trabalhar, estava convencido que meu trabalho estava me causando mais mal que bem, então pensei que precisava fazer algo por mim. Analisando a vida concluí que essa seria a oportunidade de colocar em prática um sonho que me consumia há alguns anos: fazer um voluntariado internacional.

Sempre fiz voluntariado no Brasil, inclusive tive a oportunidade de ficar por uns dias no Haiti fazendo um diagnóstico social, já que também trabalho com elaboração de projetos sociais e coordeno um projeto social de ajuda humanitária no país, mas queria me doar em um trabalho social fora do Brasil, ter a oportunidade de viver com outra cultura e aprender com suas potencialidades e fraquezas por um tempo maior.

Depois de conversar com minha família e namorada, comecei a saga de buscar uma vaga dentre as milhares de oportunidades que existem quando se trata de trabalho voluntário.
O desejo inicial era ir à África, então comecei a pesquisar todas as possibilidades de materializar esse sonho. Pesquisei muito, mas muito mesmo, e a cada pesquisa eu sentia que esse sonho se distanciava de mim, pois os custos financeiros dessa empreitada não eram compatíveis com meu orçamento. Foi conduzido a uma sensação de forte desânimo.

Sempre colocando em oração esse desejo, pedia a Deus uma resposta para esse problema, pois Ele, melhor que ninguém, sabia o quanto eu precisava viver essa experiência. Um dia, vagando pelas redes sociais, vi um amigo fazer uma postagem sobre o programa de voluntariado chamado milONGa, do qual eu nunca havia escutado falar.

Entrei na website e logo preenchi o cadastro, acreditando ser a resposta de Deus para meus questionamentos. Havia uma possibilidade de trabalho voluntario em Cochabamba, cidade que tive a oportunidade de conhecer no ano anterior, e o projeto social trabalhava Educação com crianças em risco social, e logo me interessei pela ideia, pois nunca havia trabalhado em um projeto social de Educação.

Depois de um longo período de conhecimento e diálogo, em maio resolvi que era hora de ir a Bolívia ofertar seis meses a esse lindo projeto social.

Embora já tenha viajado por alguns países e considero-me uma pessoa “global”, resolvi começar a experiência atravessando a fronteira terrestre de Corumbá e tomando um trem de 18 horas até Santa Cruz de la Sierra, e depois um ônibus de 10 horas até Cochabamba.

Nessa viajem fui interagindo com as pessoas, inclusive tive a oportunidade de fazer um grande amigo nessa jornada de ida. Depois de 3 dias viajando finalmente cheguei ao meu destino.


Quando cheguei na rodoviária de Cochabamba, as diretoras do Centro Rincon de Luz me aguardavam. Eu estava extremamente cansado, e não pude retribuir com a mesma alegria a recepção, além de ter um espanhol bastante limitado. Elas entenderam minha situação e seguimos direto a casa da família que iria me hospedar.

Passado o cansaço e o choque inicial, comecei a vivenciar a vida na linda Cochabamba, cercada de muito verde, e também muito frio para um brasileiro do Sudeste do Brasil. Comecei o trabalho na instituição e fui acolhido com muito amor por todos. Nesse momento o espanhol era um empecilho, mas todos se esforçavam para criar uma comunicação comigo.

Sentia-me muito amado pro todos eles, e não deixava de expressar toda minha gratidão para com eles.

 

 

 

 

 

 

No centro Rincon de Luz eu tive a oportunidade de fazer de tudo um pouco, fui faxineiro, atendente, ajudei com as tarefas dos assistidos, fui a encontros representar o projeto e contar a experiência. Sempre em incluíam no processo de decisão das atividades do projeto, e isso me dava uma imensa sensação de pertencimento, via aquele projeto como se fosse meu.

Adorava a relação que desenvolvi com todos, principalmente depois da evolução do meu espanhol, que hoje é muito bom.

Nesse período de quatro meses, morei com duas famílias bolivianas diferentes, e cada uma me ensinou um lado lindo da cultura boliviana, tão diferente da cultura brasileira. Depois de dois meses de trabalho, tive a alegria da chegada de outro voluntário do México, Marco, e nos tornamos grandes amigos.

Viajei muito pelo país, conheci suas diferenças regionais, fiz grandes amigos e ganhei uma família chamada Bolívia, que hoje eu tenho um grande apreço por tudo que fizeram por mim. Sou extremamente agradecido por tudo que a Bolívia me deu e por todo aprendizado que conquistei junto a esse lindo povo.

Tive muita sorte nesse intercâmbio e digo que todas minhas experiências foram muito positivas, exceto uma complicação com meu visto que me obrigou a voltar antes do prazo estabelecido.

Extremamente contrariado, voltei ao Brasil o início de outubro, sem saber que Deus ainda estaria preparando uma linda experiência ofertada pelo milONGa. Como havia pedido uma permissão de trabalho de um ano, ficaria sem o que fazer já que meu retorno havia sido antecipado, mas em contato com a super equipe do Milonga conseguiu com que eu pudesse ficar trabalhando na agência de projetos sociais do Movimento dos Focolares, na Mariapolis Ginetta.

 Chegando na cidade de Vargem Grande Paulista, depois de uma semana visitando minha família, fui encarregado de escrever um projeto social para um centro comunitário de um bairro quilombola, algo que eu nunca havia construído. Foi uma experiência fantástica e desenvolvemos um lindo projeto social de desenvolvimento comunitário, que recebeu uma certificação para captação de recursos municipais.

Essas experiências de voluntariado mudaram minha vida. Sou uma outra pessoa depois de tudo que vivi e aprendi nesse ano. Aprendi a ser mais tolerante comigo mesmo e que realizar sonhos muda o curso de nossa vida.

Quero me dedicar aos projetos sociais, pois ficou claro que posso contribuir mais com eles que em sala de aula e farei o impossível para buscar uma oportunidade de trabalho nessa área. Agradeço de todo o meu coração a cada um que fez com que essa experiência fosse a mais incrível de minha vida.